Aprendemos que educar é, de alguma forma, manter tudo sob controle. A rotina, o comportamento, os combinados, os limites. Isso é verdade e é muito importante, mas não é tudo. Quem convive de perto com crianças sabe que o controle escapa justamente quando a gente mais tenta segurá-lo.
No meio do supermercado, no “não” repetido, na dificuldade de obedecer ou na agitação que parece não ter fim. Mas e se o comportamento não for o problema? E se ele for, na verdade, uma forma de comunicação?
Quantas vezes nos faltam palavras para explicar o que queremos ou para identificar o que sentimos. Se é desafiador para nós, adultos, imagine para a criança.
A criança que parece “sem limites”, porque o corpo não para, pode estar desorganizada internamente. Aquela que parece “desinteressada” pode não saber como entrar na conversa do grupo. A que “explode” pode sentir uma sobrecarga de estímulos. Isso é ainda mais evidente quando falamos de crianças com desenvolvimento atípico, como no autismo e no TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade). Nesses casos, o comportamento pode ser a principal linguagem disponível.
E quando tentamos controlar a situação, sem a leitura do que está iniciando e mantendo o comportamento, sem compreender o que está por trás dele, perdemos a oportunidade de ensinar algo novo que pode substituir o que não está funcionando.

Isso não significa ausência de limites. Crianças precisam de regras e rotina estruturada para se sentirem seguras. Se a criança não entende, existe a chance de comportamentos de confronto ou recusa surgirem. Por outro lado, se somente compreendemos, sem ensinar as regras e limites, sentimentos de medo, ansiedade e comportamentos de desorganização aparecem.
Esse equilíbrio talvez não seja ter tudo sob controle, mas saber o que fazer quando não está.
Um exemplo ajuda a ilustrar isso. Imagine uma criança que, toda vez que precisa sair de um lugar de que gosta, se recusa, chora e grita. Isso pode sugerir uma dificuldade na transição, no mudar de uma atividade para outra. Podemos antecipar, avisar antes, usar um cronômetro para mostrar quanto tempo ela tem naquela atividade. Aos poucos, ela aprende uma forma diferente de lidar com aquela situação.
Ensinar à criança novas formas de comunicação, ajudá-la a entender o que sente e como agir nos aproxima do que realmente importa. Quando ela encontra maneiras mais organizadas e eficazes de se expressar, o comportamento muda. Fica mais fácil entender o que está acontecendo no ambiente ao seu redor. Entender o que os adultos estão pedindo gera sentimento de calma, não porque o comportamento foi controlado, mas porque passou a fazer sentido.
Talvez ensinar à criança uma comunicação mais favorável, uma forma de interagir que a ajude a ser ouvida, nos dê a sensação de controle que buscamos.

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