Silas Malafaia grava pelo menos um vídeo por semana atacando Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal. Os ataques sistemáticos começaram após a derrota de Bolsonaro no pleito de 2022. Além dos vídeos, o pastor completará um ano de manifestações na avenida Paulista nas quais acusa Moraes de censurar o direito constitucional de cidadãos à liberdade de expressão.
Ele chegou a gravar três vídeos contra Moraes nas últimas semanas. Malafaia tira férias do púlpito da sua igreja, mas não deixa de gravar vídeos afirmando que o ministro persegue Bolsonaro e seus apoiadores e que deveria sofrer impeachment pelo Senado.
Malafaia, nas manifestações na Paulista e nos vídeos, afirma que Moraes é covarde, cínico, mentiroso, assassino e manipulador. Também lança mão de expressões bíblicas para se referir ao ministro como “juiz iníquo” ou “homem mau e de dura cerviz”. Moraes é frequentemente xingado de desgraçado, cretino e cão de guarda por Malafaia.
Eleitores do presidente Lula têm levantado a questão: por que Alexandre de Moraes não age contra o pastor? A razão é simples: Silas Malafaia tornou-se a prova viva de que a liberdade de expressão no Brasil está funcionando normalmente. Afinal, se a tal “ditadura do Judiciário” fosse realidade no país, Malafaia já teria sido silenciado.
O parágrafo acima pode ser reescrito na forma de silogismo: se a liberdade de expressão não existe e Alexandre de Moraes é o responsável, então críticas a ele seriam impossíveis. No entanto, Malafaia tem expressado críticas desrespeitosas ao ministro por três anos. Logo, a liberdade de expressão é uma realidade no Brasil, e as críticas de Malafaia servem como prova.
A perseverança do pastor nos ataques a Moraes produziu um dilema: se ele parar de criticar o ministro, parecerá fraco; ao continuar sua cruzada contra Moraes, confirma que a liberdade de expressão existe. Malafaia frequentemente afirma ter um vídeo gravado para o caso de ser preso. No entanto, a aparente indiferença de Moraes às críticas frustra seu plano de se tornar um mártir da liberdade de expressão.
Falta de lógica não é o único problema com os discursos do pastor. O tom agressivo o torna um líder cada vez mais distante do que se espera de um religioso. As falas raivosas visam a suscitar ira e desprezo contra Moraes, o que claramente é incompatível com o papel pastoral. Não por acaso, ele faz referência a Deus em seus discursos somente no começo e no final.
“O senhor é um pastor foda”, disse o deputado federal Zucco para Malafaia na manifestação em Brasília. A frase foi recebida por Malafaia com indisfarçável sorriso de contentamento e publicada em suas redes sociais.
É válido que líderes religiosos adotem posicionamentos políticos para defender os valores em que acreditam, mas isso não os isenta das regras da civilidade e do bom senso. Um bom exemplo é dom Paulo Evaristo Arns. Ele defendeu os direitos humanos e a liberdade de expressão durante o regime militar. Alguém se lembra do cardeal de São Paulo referindo-se aos torturadores e ditadores como “desgraçados”? Certamente, não lhe faltava coragem e indignação diante dos crimes do regime, mas sobrava-lhe consciência de sua missão pacificadora.
Malafaia se afasta cada vez mais do comportamento sóbrio e da linguagem respeitosa dos milhares de pastores evangélicos brasileiros. Na manifestação do último domingo, na Paulista, ouvi-lo afirmando que Jair Bolsonaro é insubstituível como líder político me fez lembrar do falso profeta que apregoa que todos devem adorar a besta. Tempos apocalípticos.
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