“O Brazil tá matando o Brasil”, diz a música de Aldir Blanc e Maurício Tapajós de 1978. O fenômeno do patriotismo reverso, como se vê, não é recente.
O lema “Deus, pátria, família” é bem mais antigo. Foi usado pelo movimento integralista brasileiro nos anos 1930. O movimento que trazia as palavras “pátria” em seu slogan e “brasileiro” em seu nome foi inspirado, vejam só, no fascismo… europeu.
O genial Barão de Itararé desmoralizou o movimento integralista acrescentando apenas uma letra: “Adeus, pátria, família”. Podemos atualizar o slogan mexendo na pontuação: “Adeus, pátria. Família!” cai como uma luva para a filosofia bolsonarista.
A ditadura militar instaurada a partir de 1964 deslocou, de vez, o nosso patriotismo para a América do Norte. Não deixa de ser irônico que tantos anos depois o slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o” venha explicar a atitude de Eduardo Bolsonaro de deixar o país: “Brazil: ame-o e deixe-o” cai como uma luva na filosofia bolsonarista.
O patriotismo reverso brasileiro, como se vê, não é um fenômeno recente. Tem suas raízes na visão de que a sociedade brasileira deveria se transformar numa Sociedade Anônima: Brazil, S.A. Nessa visão disruptiva, a cultura, a Amazônia, os povos originários, os pobres, as universidades seriam entraves para um país que trabalha e se agiganta.
A lógica reversa é um pilar de sustentação ideológica do projeto de “Brazil”. Há quem chame o golpe de 1964, por exemplo, de Revolução. Não seria o primeiro caso de uma revolução imposta para que tudo permanecesse como estava. Mas não deixa de ser curioso.
Ainda hoje —assim como em 1930 e 1964— há quem defenda uma ditadura real para proteger o país de uma ditadura imaginária. Essa lógica é refletida no espelho de forma invertida.
Só que o bolsonarismo levou a lógica reversa a outro patamar. Não só pelo ministro do Meio Ambiente que odiava o meio ambiente, o da Educação que não sabia escrever ou o diplomata que não sabia conversar.
Todo o slogan “Deus, pátria e família” está invertido. Hoje existem discípulos de Jesus que veneram o Império Romano. Há defensores da família tradicional que “pintam um clima” com menores de idade e usam o apartamento funcional para “comer gente”.
Todo esse caminho percorrido até aqui explica o surgimento dos patriotas que gozam com a pátria alheia. A verdadeira Bahia é Balneário Camboriú.
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