O uso de telas na infância já faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras, mesmo quando essa não é a intenção inicial.
Logo nos primeiros anos de vida, a internet aparece como companhia frequente dentro de casa.
Mas será que a gente para, de fato, para observar o impacto disso na infância e na parentalidade?
Um estudo recente traz números que ajudam a refletir sobre essa realidade e acendem um alerta importante para mães e pais.
Crianças conectadas antes do esperado
Segundo o estudo “Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais”, desenvolvido pelo Núcleo Ciência pela Infância, quase metade das crianças de até 2 anos já acessa a internet no Brasil.
Entre aquelas de 3 a 5 anos, o índice é ainda maior.
Além disso, o acesso inicial à web na primeira infância mais que dobrou em menos de uma década. Esse crescimento rápido mostra que as telas chegaram cedo e se instalaram de vez no cotidiano familiar.
Quando a rotina pesa sobre as famílias
O estudo também mostra que a renda familiar influencia diretamente essa relação com as telas. Quanto menor a renda, menor costuma ser a disponibilidade de redes de apoio.
Como consequência, aumentam as chances de as telas ocuparem o lugar do convívio, do brincar e da interação. Não por falta de cuidado, mas por sobrecarga.
Quem cuida sabe: nem sempre é simples dar conta de tudo.
Tempo excessivo e seus impactos
Entre as crianças de famílias de baixa renda, 69% são expostas a tempo excessivo de tela. Esse dado preocupa porque esse tipo de exposição está associado a impactos no desenvolvimento infantil.
Os pesquisadores identificaram possíveis alterações na anatomia do cérebro, incluindo prejuízos no processamento visual e em funções cognitivas importantes, como atenção voluntária, reconhecimento de letras e cognição social.
O papel do conteúdo e do uso passivo
Além do tempo, a forma como as telas são usadas também importa.
O uso passivo e excessivo, somado à baixa qualidade do conteúdo, pode afetar áreas cerebrais ligadas à linguagem, à regulação das emoções e ao controle de impulsos.
Mesmo assim, o estudo aponta que 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas às telas diariamente, ainda que os responsáveis reconheçam a importância de impor limites.
Aqui, surge um desafio comum a muitas famílias.
Atenção aos conteúdos violentos
Outro ponto de alerta envolve a exposição a conteúdos violentos.
De acordo com a pesquisa, esse tipo de material pode reduzir a atividade de áreas do cérebro responsáveis pela regulação do comportamento hostil e aumentar a ativação de estruturas ligadas a planos agressivos.
Além disso, videogames e outros conteúdos com violência estão associados a maior risco de comportamentos hostis, ansiedade, depressão, pesadelos e maior aceitação da violência como solução de conflitos.
O que orienta a sociedade de pediatria
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Pediatria é clara em suas recomendações. O uso de telas não é indicado para crianças menores de 2 anos.
Já entre 2 e 5 anos, o tempo deve ser limitado a uma hora por dia e sempre com acompanhamento de um adulto responsável.
Mais do que controlar o relógio, a orientação reforça a importância da presença, da escuta e da participação ativa na rotina.
Por que políticas públicas também importam
O estudo destaca ainda a necessidade de políticas públicas que integrem saúde, educação, assistência social e proteção de direitos.
Entre as ações recomendadas estão campanhas de sensibilização sobre o uso responsável da tecnologia, formação qualificada de profissionais, fiscalização de classificações indicativas e proteção contra conteúdos inadequados e publicidade abusiva.
Tudo isso ajuda a criar ambientes mais seguros e a apoiar as famílias de forma concreta.
Ao observar esses dados, fica claro que o uso de telas na infância não é uma questão simples nem isolada.
Ele atravessa a rotina, a parentalidade e o contexto social das famílias. Por isso, conversar sobre o tema, buscar informação e refletir sobre escolhas possíveis faz parte do cuidado diário.
Afinal, mais do que proibir ou liberar, o que realmente faz diferença é estar presente.
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