Desde pequena, sempre ouvi que tudo na vida tem um preço, tem um valor. E isso me incomodava. Afinal, pessoas não estão à venda. Com o tempo, entendi que a frase não fala sobre comprar alguém, mas sobre reconhecer valor: valor do trabalho, do tempo, da disponibilidade e da energia que alguém entrega.
E então me pergunto: por que ainda é tão difícil reconhecer o valor do trabalho de cuidado realizado pelas mães?
Por que esse trabalho, tão essencial para a vida dos filhos, ainda é tratado como algo natural, automático, invisível? Por que tantas mães, especialmente mães solo, mães que trabalham fora, mães com dupla ou tripla jornada e mães de crianças neurodivergentes, continuam sendo vistas como se apenas estivessem “cumprindo seu papel”, e não exercendo um verdadeiro trabalho diário, intenso e indispensável?
Durante anos, uma mãe cuida, alimenta, acolhe, educa, organiza, costura, cozinha, leva, busca, acompanha, observa, protege e sustenta. Nos primeiros meses de vida do bebê, muitas vezes mal dorme. Depois, ensina a comer, a falar, a andar, a conviver. Administra consultas médicas e odontológicas, vacinas, escola, lição de casa, uniforme, lanche, aniversário, remédio, febre, virose, rotina, choros, medos e necessidades que nunca parecem terminar.
É ela quem percebe quando a criança não está bem. Quem lembra do horário da consulta. Quem compra a meia que faltou. Quem participa das reuniões escolares. Quem improvisa a cartolina no domingo à noite. Quem troca a roupa de cama mijada ou vomitada. Quem acompanha o dever da escola, o desenvolvimento, a adaptação e os pequenos sinais que quase ninguém vê.
E, na maior parte das vezes, faz tudo isso sem descanso, sem reconhecimento e sem remuneração.
Por isso, quando atuo em processos de pensão alimentícia, sempre me chamam atenção algumas perguntas que aparecem com frequência:
Mas ela não vai ajudar?
Ela não vai contribuir?
Ela não vai pagar nada?
As despesas precisam ser divididas.
A resposta é simples: essa mãe já contribui, e muito.
Ela contribui com trabalho, com tempo, com disponibilidade, com renúncias profissionais, com desgaste físico, com carga mental e com presença constante. Se fosse preciso contratar profissionais para executar parte do que uma mãe faz diariamente, quanto isso custaria?
Transporte ou motorista escolar
Cozinheira
Empregada doméstica
Babá
Acompanhante para terapias, consultas, rotina escolar e atividades.
Somados, esses serviços facilmente ultrapassam dez mil reais por mês. E, ainda assim, essa conta não incluiria o mais difícil de mensurar: a atenção contínua, a vigilância emocional, o planejamento invisível e o cansaço acumulado de quem sustenta a rotina da criança todos os dias.
Quando falamos de mães de crianças neurodivergentes, essa realidade se torna ainda mais intensa. Há acompanhamentos terapêuticos, adaptações, deslocamentos, relatórios, reuniões escolares, manejo de crises, atenção redobrada com alimentação, sono, comunicação e desenvolvimento.
É um trabalho de cuidado que exige presença, energia, organização e, muitas vezes, dedicação integral.
Por isso, reduzir a discussão da pensão alimentícia a uma conta fria é ignorar a realidade. A pensão não existe para “ajudar a mãe”, como ainda se diz por aí. Ela existe para assegurar dignidade à criança e para repartir, minimamente, a responsabilidade entre os genitores.
Quando uma mulher pede pensão alimentícia para um(a) filho(a), ela não é interesseira, ela é RESPONSÁVEL.

É exaustivo precisar explicar o óbvio em tantos processos: criança custa caro. E custa não apenas em mensalidades, remédios, alimentação, transporte, atividades, plano de saúde ou material escolar. Criança custa também em trabalho de cuidado. E esse trabalho, em regra, continua recaindo de forma desproporcional sobre as mães.
Não se trata de colocar preço no amor materno. Amor não se mede em dinheiro. Mas o trabalho de cuidado tem, sim, valor econômico, social e jurídico, ainda que nem sempre seja reconhecido como deveria.
Neste Dia das Mães, talvez a reflexão mais importante seja esta: não há dinheiro no mundo que pague integralmente a dedicação de uma mãe. Mas isso não pode servir de desculpa para invisibilizar tudo o que ela faz. Pergunte-se: quem paga pelo cuidado materno?
Reconhecer o valor do trabalho materno não significa romantizar a sobrecarga. Muito pelo contrário: é enfrentar uma injustiça histórica. E, nos processos de pensão alimentícia, esse reconhecimento precisa deixar de ser exceção e passar a fazer parte da realidade.
Feliz Dia das Mães!

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