Ser mãe nunca coube em uma definição simples. Tem amor, claro. Tem afeto, entrega e aprendizado diário. Mas também tem cansaço, culpa, contas para pagar, rotina apertada e, muitas vezes, a sensação de que o cuidado com si mesma ficou para depois.
Neste Dia das Mães, três levantamentos e especialistas ajudam a desenhar um retrato mais real da maternidade em 2026 — uma experiência marcada por desafios emocionais, financeiros e pela importância de vínculos afetivos que começam logo na primeira infância.
O afeto também educa
Quando pensamos em desenvolvimento infantil, é comum associar o aprendizado às horas de estudo ou ao desempenho escolar. Mas especialistas apontam que há outro elemento decisivo nessa equação: o vínculo afetivo.
Segundo um estudo publicado no Journal of Epidemiology and Community Health, crianças que crescem em ambientes afetivos e acolhedores tendem a desenvolver maior capacidade para lidar com pressão e adversidades ao longo da vida.
Para Mariane Araújo, diretora-pedagógica do Ensino Infantil da Rede Alfa CEM Bilíngue, essa segurança emocional construída dentro de casa faz diferença direta no aprendizado.
“Quando a criança se sente emocionalmente acolhida, ela consegue direcionar mais energia para a descoberta, para a curiosidade e para o aprendizado. Esse sentimento de segurança favorece a autonomia e a disposição para enfrentar o desconhecido, que faz parte do processo de aprendizagem”, explica.
Segundo ela, aprender exige coragem — e essa coragem nasce quando a criança sabe que existe uma base segura para voltar.
“Essa habilidade de se acalmar com apoio externo é internalizada e se transforma em autorregulação. Alunos que dominam a regulação emocional demonstram maior foco, persistência e resiliência, não ‘desmoronando’ diante do primeiro erro e conseguindo manter a memória de trabalho intacta mesmo sob estresse”, comenta Mariane.
A especialista reforça ainda que esse vínculo não exige perfeição. “O sucesso escolar não nasce apenas nos livros. Ele floresce em um ambiente onde a criança se sente vista, ouvida e, acima de tudo, segura para falhar e tentar de novo. O vínculo é a permissão para errar e o incentivo para recomeçar”, conclui.

A sobrecarga financeira também pesa
Se criar filhos já exige muito emocionalmente, a vida financeira adiciona outra camada de pressão.
Pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box mostra que 90% das mães brasileiras afirmam que equilibrar responsabilidades domésticas e profissionais ainda é um desafio.
Além disso, 78% solicitaram crédito no último ano, principalmente para cobrir despesas inesperadas, dívidas de cartão de crédito e contas básicas.
“Muitas mães ainda enfrentam um cenário de pressão constante. A necessidade de equilibrar múltiplas responsabilidades, somada ao acesso limitado ao crédito e ao endividamento, impacta diretamente a saúde financeira e emocional dessas mulheres”, afirma Monica Seabra, especialista da Serasa em educação financeira.
A busca por renda extra também aparece como parte dessa realidade: 7 em cada 10 mães já recorreram ao trabalho informal para complementar a renda.
Ao mesmo tempo, há um movimento de mudança. Segundo a pesquisa, 79% das mães dizem buscar mais conhecimento sobre educação financeira, principalmente em redes sociais, aplicativos bancários e com amigos e familiares.
“Os dados mostram que, mesmo diante dos desafios, as mães brasileiras estão cada vez mais engajadas em melhorar sua relação com o dinheiro, um movimento que reforça o protagonismo feminino na construção da saúde financeira das famílias”, completa Monica.
Quando a maternidade exige ainda mais: o olhar para mães atípicas
Se a maternidade já costuma ser intensa, para mães atípicas a rotina pode ser ainda mais exigente.
No caso de mães de crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e outras condições do neurodesenvolvimento, a sobrecarga costuma incluir terapias, consultas, adaptações constantes e uma rotina muitas vezes imprevisível.
Segundo o psiquiatra Guido Boabaid May, CEO da GnTech, isso pode levar ao esgotamento emocional.
“A maternidade atípica envolve demandas contínuas, muitas vezes intensas e imprevisíveis. Há uma carga adicional relacionada à gestão de terapias, consultas, intervenções precoces e adaptações na rotina”, explica.
Entre os sinais mais comuns estão fadiga persistente, irritabilidade, sensação constante de sobrecarga, dificuldade de concentração e alterações no sono.
Para ele, um dos maiores obstáculos é a culpa que muitas mães sentem ao pensar em autocuidado.
“A culpa é um elemento frequente e, muitas vezes, está associada a padrões internos rígidos sobre o que significa ser uma boa mãe. Trabalhar essa questão envolve reestruturar essas crenças e compreender que o autocuidado não compete com o cuidado da criança: ele o sustenta”, destaca.

Entre as estratégias recomendadas estão pequenos momentos de autocuidado, uma rede de apoio estruturada, psicoterapia e rotinas previsíveis para reduzir o estresse.
Mas ele faz um alerta importante: a maternidade atípica não pode ser resumida apenas pelo sofrimento.
“Muitas mães relatam desenvolvimento de resiliência, ampliação de repertórios emocionais e uma relação profundamente significativa com os filhos. No entanto, romantizar essa experiência pode invisibilizar necessidades reais de suporte”, finaliza.
Neste Dia das Mães, um lembrete importante
Existe uma imagem antiga de que mãe dá conta de tudo e, muitas vezes, em silêncio. Mas talvez o maior aprendizado deste Dia das Mães seja justamente outro: lembrar que cuidar de quem cuida também deveria ser prioridade.
Mães seguem sustentando lares, acolhendo filhos, organizando rotinas, enfrentando desafios financeiros e emocionais — e ainda ensinando, todos os dias, que afeto também é uma forma de educar. E isso merece ser celebrado e, também, apoiado.

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